Samuel Sposito, Diretor de Criação e CEO da Agência Elohim · Revisão editorial em 27/10/2026 · Tempo estimado de leitura: 6 min.
Às vezes, o projeto termina na tela. Dessa vez, ele virou conversa.


Quando recebi o convite para compartilhar um dos nossos trabalhos no primeiro encontro presencial do Montag Club, da Montag School, fiquei feliz. Mas também veio aquela responsabilidade boa de quem sabe que precisa mostrar mais do que o resultado final.
Afinal, é fácil olhar para uma imagem feita com IA e pensar: “Nossa, que legal. Qual foi o prompt?”
Só que, para mim, a parte mais interessante quase nunca cabe em um prompt. Está nas referências que escolhemos, nas decisões que tomamos, nos testes que não funcionaram e na direção criativa que conecta tudo isso.
No dia 17 de outubro de 2026, tive a oportunidade de transformar esse processo em uma conversa com outros profissionais de criação. E foi uma experiência que me fez olhar para o trabalho de outro jeito.
O projeto começou com uma pergunta, não com uma ferramenta
O estudo que levei ao encontro nasceu de um conceito para o Dia dos Pais:
“Não existe pai padrão. Nem cuidado padrão.”
A proposta era explorar diferentes formas de viver a paternidade. Não queríamos seis personagens com rostos diferentes contando exatamente a mesma história. Queríamos seis perfis de pais, cada um com sua personalidade, expressão, estilo e maneira de se relacionar com a ideia de cuidado.
Era um estudo criativo de casting 100% IA para uma possível campanha de Dia dos Pais, e não uma campanha veiculada. Essa distinção importa porque o objetivo era investigar até onde conseguiríamos levar a construção de personagens, a fotografia e uma linguagem visual consistente usando IA no processo de criação.
E, antes de gerar qualquer imagem, fizemos o que sempre fez parte de uma boa direção de arte: pesquisar, observar e construir repertório.


Muito antes do primeiro prompt
Comecei pela pesquisa visual. Referências de fotografia, moodboards, tipos de enquadramento, iluminação, figurino, expressões e atmosfera. Cada escolha precisava conversar com a mensagem que queríamos transmitir.
Depois veio a construção dos personagens. Não era simplesmente pedir “um pai sorrindo com o filho”. Era entender quem aquele personagem poderia ser, como se apresentaria diante da câmera e quais detalhes tornariam sua imagem coerente com o conceito.
Na exploração do casting, usei IA para desenvolver os rostos e os perfis. A partir daí, trabalhei os composites e as referências de cada personagem, buscando consistência entre diferentes vistas e cenas. A direção fotográfica guiou os ajustes de luz, enquadramento, postura e expressão.
Também houve muitas tentativas, seleções, correções e refinamentos. Imagens bonitas que não contavam a história certa precisaram ficar de fora. Outras chegaram perto, mas ainda tinham problemas de proporção, expressão ou continuidade.
Gerar uma imagem é uma etapa. Dirigir uma imagem é outra.
A construção do key visual e dos desdobramentos veio depois, com curadoria e finalização. O objetivo nunca foi usar IA apenas para impressionar. Foi mostrar que seria possível construir um casting visualmente consistente, com intenção criativa do início ao fim.


O que significa, de verdade, casting 100% IA?
Significa que os personagens apresentados naquele estudo foram criados digitalmente com IA. Não houve contratação de modelos nem ensaio fotográfico convencional para produzir aquele casting.
Mas isso não significa que o trabalho tenha surgido automaticamente depois de escrever uma frase em uma ferramenta.
Houve conceito, pesquisa, direção de arte, construção de personagens, experimentação, critérios de escolha e tratamento visual. Ferramentas ajudaram a executar etapas que antes dependeriam de outro tipo de produção. A responsabilidade pelas decisões criativas continuou sendo humana.
Essa é uma conversa que considero importante, especialmente para quem trabalha com publicidade: IA não elimina a necessidade de repertório. Ela torna ainda mais evidente quem sabe o que quer comunicar.
O melhor momento não estava na apresentação
Poder mostrar o resultado foi especial. Mas o que mais ficou comigo foi a oportunidade de abrir os bastidores e trocar ideias com pessoas que também estão tentando entender, testar e transformar a maneira de criar.
O primeiro encontro presencial do Montag Club não foi, para mim, apenas um evento sobre ferramentas de IA. Foi um espaço para falar de processo, escolhas, dúvidas, storytelling e do papel da direção criativa em um mercado que muda muito rápido.
Durante muito tempo, projetos assim ficaram entre a minha tela, meus arquivos e as conversas de trabalho. Naquele dia, ganharam voz. E ouvir outras perspectivas fez parte do aprendizado.
Saí com uma sensação boa: a de que compartilhar o caminho pode ser tão valioso quanto mostrar a imagem pronta.


Tem uma parte dessa história que eu não poderia deixar de contar
A Elohim começou com um sonho dentro de um quarto. Por isso, existem momentos em que eu olho para o caminho percorrido e penso em tudo o que precisou acontecer para chegar até aqui.
Esse encontro foi um desses momentos.
Sou grato à Montag School e ao Montag Club pelo espaço, pelo convite e pela oportunidade de dividir um pouco do nosso processo com outros criativos. Também agradeço a cada pessoa que participou dessa troca.
Mas meu primeiro agradecimento é a Deus. Pela sabedoria nos desafios, pela força nos dias difíceis, pelas pessoas que coloca no caminho e pelas portas que se abrem quando a gente continua trabalhando e acreditando.
Tem um versículo que resume bem esse sentimento:
“Até aqui nos ajudou o Senhor.” — 1 Samuel 7:12
A tecnologia faz parte do que estamos construindo. A fé, a dedicação e a vontade de criar algo com propósito fazem parte de quem eu sou.
E agora?
Voltei do encontro ainda mais convencido de uma coisa: o futuro da criação não está em apertar um botão mais rápido. Está em ter boas ideias, fazer boas perguntas e saber dirigir novas possibilidades.
Quero continuar experimentando, errando, aprendendo e compartilhando os processos por trás das entregas da Elohim. Porque, no fim, a ferramenta pode mudar. A intenção de criar algo que faça sentido continua sendo o que importa.
E pensar que tudo isso começou com seis pais que nunca existiram — mas com histórias que poderiam existir.
Samuel Sposito
Diretor de Criação e CEO da Agência Elohim
Conheça o estudo: Casting 100% IA
